Após amputação, lagopratense encontra no esporte um caminho para superar limites e realizar sonhos

(Foto: Mateus Penido/Arquivo Pessoal)
Nessa semana, repercutiu nas redes sociais o vídeo de um corredor amputado cruzando a linha de chegada na Corrida do Cruzeiro em Divinópolis. O atleta é Mateus Penido, lagopratense que vem se tornando um símbolo de superação e resiliência. Ao Sou+Lagoa, ele contou que a amputação mudou a sua relação com o próprio corpo, mas não encerrou seus planos para o futuro.
Em meio à necessidade de reaprender movimentos e respeitar novos limites, ele encontrou no esporte uma forma de descobrir possibilidades e recuperar a confiança. A corrida ocupa um lugar especial nessa trajetória, marcada pela adaptação e pela vontade de seguir em frente. “Hoje eu enxergo o esporte como uma ferramenta de transformação, liberdade e descoberta. Depois da amputação, precisei aprender novamente a lidar com meu corpo, respeitar meus limites e descobrir novas possibilidades”, contou Mateus.
A perda da perna aconteceu após um acidente doméstico. Na ocasião, a demora do socorro agravou a lesão e Mateus passou dez dias em coma. “Minha família teve que escolher por mim. Foi uma mudança enorme que trouxe desafios físicos e emocionais, mas também me fez enxergar a vida de outra maneira. Eu não escolhi o que aconteceu comigo, mas decidi como enfrentar essa realidade. Principalmente, minha fé em Deus e o amor pela minha esposa e pela minha filha foram fundamentais nesse processo”, relatou.
A retomada das atividades físicas também abriu espaço para novas experiências. Além da corrida, ele praticou jiu-jítsu, modalidade que contribuiu para o desenvolvimento da disciplina e do respeito. Para Mateus, cada esporte oferece aprendizados diferentes, mas todos compartilham uma mensagem importante: a deficiência não precisa determinar até onde uma pessoa pode chegar. “Eu quero continuar evoluindo, conquistando meus objetivos e incentivando outras pessoas. Quero também encontrar meu caminho no esporte. Hoje, um dos maiores desafios é adaptar os movimentos, encontrar a maneira segura de realizar cada atividade, lidar com as limitações físicas, o desgaste e a dificuldade que muitas vezes as pessoas não conseguem enxergar”, explicou.
A acessibilidade nos eventos de corrida
Apesar de participar de muitas competições, Mateus destaca a falta de acessibilidade como uma questão presente na maioria das situações. “Por serem eventos pequenos, a acessibilidade é um pouco difícil. Em alguns você tem que se humilhar para fazer uma inscrição para PCD. Em outros, nem tem, você corre como normal mesmo. Eu acho que não só essas corridas locais, todo lugar deveria dar uma visibilidade maior para o público PCD. O apoio deveria ser geral, tentar entender a dor, dar uma visibilidade maior, atender as necessidades”.
Mateus utiliza uma prótese no dia a dia, mas, durante as corridas, conta com o apoio de muletas. Ele também aguarda a possibilidade de conseguir uma prótese específica para a prática esportiva, que poderá ampliar suas alternativas de movimento durante os treinos e as provas. Enquanto esse recurso não chega, ele segue participando das corridas com os equipamentos que tem à disposição. “Cada chegada representa muito mais que completar uma corrida, representa vida, coragem e a decisão de continuar. O esporte me devolveu a sensação de que eu ainda posso sonhar grande e trabalhar para realizar esses sonhos. Enquanto a prótese de corrida não chega, vai ser de muletas e uma perna só”, afirmou.
Recomeçar sem abrir mão dos sonhos
A experiência também mudou a maneira como Mateus encara as dificuldades. Sem ignorar as dores e os dias em que seguir em frente parece mais difícil, ele acredita que as mudanças inesperadas não precisam definir todo o futuro. “Hoje, o conselho que eu posso deixar para as pessoas é: não permita que o momento mais difícil da sua vida defina toda a sua história. Eu sei que existem dores, perdas e mudanças que não conseguimos evitar, mas a gente pode escolher o que fazer a partir delas. Eu não estou dizendo que é fácil, nem que precisamos ser fortes o tempo todo. Existem dias difíceis e tudo bem”, declarou.
Além de se tornar uma inspiração, Mateus também busca construir seu próprio caminho no esporte. A trajetória, segundo ele, não precisa ser guiada pela obrigação de provar algo a alguém, mas pela vontade de viver novas experiências. “Eu digo o seguinte: respeite o seu tempo, recomece quantas vezes forem necessárias e não tenha vergonha de estar aprendendo os passos. Eu perdi uma parte do meu corpo, mas não perdi meus sonhos, minha fé ou minha vontade de viver. Hoje, eu quero mostrar que a vida não é apenas sobre o que perdemos, mas sobre o que decidimos fazer com aquilo que nos restou. Você não precisa provar nada para ninguém, só não desista de descobrir tudo o que ainda é capaz de viver”, finalizou.








